Educação financeira: entre o conteúdo do documentário e algumas reflexões pessoais

O documentário Manual Básico da Educação Financeira, cuja estreia na programação da TV Brasil ocorreu no domingo, 12 de julho, às 19h30, inicia estabelecendo uma comparação entre a condução de um veículo e a maneira como administramos nosso dinheiro. A analogia sugere que, assim como dirigir exige conhecimento, atenção, responsabilidade e planejamento, cuidar da vida financeira também requer aprendizado e tomada consciente de decisões.

Ao longo do programa, destaca-se a importância da educação financeira para que as pessoas possam lidar de maneira mais equilibrada com o dinheiro. Nesse contexto, a participação do professor Fabio Gallo, da Fundação Getulio Vargas — FGV, é fundamental para explicar o crescimento do endividamento na sociedade brasileira. Entre os fatores apresentados, o professor aborda os impactos econômicos provocados pela pandemia da Covid-19, que ampliou as dificuldades financeiras e comprometeu a capacidade de pagamento das famílias.

O documentário também apresenta o conceito de alfabetização financeira, ressaltando que grande parte da sociedade brasileira não recebeu formação adequada para administrar renda, gastos, dívidas e aplicações financeiras. Durante décadas, os sucessivos processos inflacionários dificultaram a organização de um orçamento familiar. Diante dos constantes reajustes de preços, as famílias procuravam comprar rapidamente os produtos de que necessitavam, especialmente nos supermercados, para evitar novos aumentos. Naquele contexto, mais do que planejar, era preciso sobreviver e preservar, na medida do possível, o poder de compra.

Com a redução e a maior estabilidade das taxas de inflação nas últimas décadas, surgiram condições mais favoráveis para que as famílias planejassem suas despesas e elaborassem um orçamento. Entretanto, conforme demonstra o documentário, apesar dessa possibilidade, muitas pessoas ainda não desenvolveram o hábito de organizar as finanças familiares. Como consequência, também não se consolidou uma tradição de formação de poupança e de planejamento financeiro de longo prazo.

Após a participação do professor Fabio Gallo, o documentário amplia a discussão por meio da contribuição de Ione Amorim, economista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor — Idec. Ela apresenta a Estratégia Nacional de Educação Financeira — ENEF como uma política pública direcionada, principalmente, aos estudantes dos ensinos fundamental e médio. Entretanto, observa que essa política ainda não alcança de maneira suficiente a população economicamente ativa.

Segundo a exposição apresentada no programa, a educação financeira precisa ser ampliada. Esse processo também se relaciona com a Lei do Superendividamento, abordada a partir de três eixos: prevenção, disciplina e tratamento. O tema é oportuno porque o endividamento não deve ser analisado apenas quando a família já perdeu sua capacidade de pagamento. É necessário agir antes, oferecendo informação, orientação e mecanismos de negociação.

Na sequência, o documentário apresenta o papel dos influenciadores digitais na divulgação de conteúdos financeiros, assim como o uso da gamificação, que permite abordar determinados conceitos de maneira mais lúdica. Também é formulado um questionamento relevante: qual seria a idade ideal para começar a lidar com dinheiro? A resposta passa pela construção da autonomia e pela compreensão de que os recursos financeiros são finitos.

Um dos pontos mais interessantes do documentário é justamente a incorporação dos aspectos comportamentais. Não basta saber calcular, registrar valores ou conhecer aplicações financeiras. É preciso compreender como nossas emoções, hábitos, desejos e relações sociais influenciam as decisões de consumo. Em minha leitura, essa dimensão comportamental é uma das partes mais valiosas do programa.

Por se tratar de um documentário, seria quase inevitável não apresentar uma experiência familiar como exemplo do mundo real, especialmente diante dos efeitos da pandemia. O caso exibido revela as dificuldades enfrentadas para honrar compromissos financeiros e reorganizar a vida familiar. Para aquela família, discutir objetivos era fundamental, sobretudo quando se considerava a formação dos filhos.

Outro aspecto positivo é o fato de os assuntos financeiros serem discutidos por todos os integrantes da família. O dinheiro deixa de ser um tema restrito a uma única pessoa e passa a integrar o diálogo familiar. Essa participação coletiva favorece a definição de prioridades, a compreensão dos limites financeiros e a construção de objetivos comuns.

O documentário utiliza com frequência os termos “receitas” e “despesas”. Não há necessariamente um problema nessa escolha, pois são palavras conhecidas pelo público. No entanto, em uma análise mais técnica, considero adequado observar que as famílias possuem renda e gastos. A renda pode vir de salários, pró-labore, aluguéis, juros e outros rendimentos. Os gastos, por sua vez, podem ser fixos ou variáveis e acompanhados por instrumentos dos mais simples aos mais sofisticados.

O cartão de crédito também recebe espaço no documentário. Dependendo da forma como é utilizado, pode passar de aliado a vilão. O cartão facilita pagamentos, concentra despesas e pode ser útil em situações específicas. Entretanto, quando seu limite é confundido com renda disponível, o risco de endividamento aumenta.

A digitalização dos meios de pagamento tem feito com que as famílias tenham cada vez menos contato com o dinheiro físico. Esse fenômeno se aproxima de reflexões que desenvolvo no ensaio Não-Moeda e a Descontemplação. Quando o consumidor deixa de visualizar concretamente o dinheiro, pode perder parte da percepção sobre o que está gastando. O problema se agrava quando o crédito é incorporado à renda como se fosse uma extensão do salário. Nesse caso, a inadimplência pode ser rapidamente ativada.

O documentário também apresenta o papel do empreendedor, seja ele movido pela necessidade, seja pela identificação de uma oportunidade. Os empreendedores são importantes para a economia, pois geram renda, movimentam comunidades e criam soluções. Entretanto, faço aqui uma ressalva que não aparece de maneira aprofundada no programa: muitos empreendedores confundem o patrimônio pessoal com o patrimônio da empresa.

Essa confusão patrimonial faz com que compromissos pessoais sejam tratados como despesas empresariais ou que os recursos da empresa sejam usados sem planejamento para resolver questões particulares. Trata-se de um problema frequente, muitas vezes associado à falta de capacitação administrativa e financeira.

O documentário apresenta casos de sucesso no empreendedorismo e demonstra que muitos aprendizados surgem a partir dos erros. Os depoimentos revelam melhorias na vida familiar e colocam para algumas famílias a educação dos filhos como prioridade. Eu ampliaria esse entendimento: além da educação formal, é necessário falar em capacitação. Uma ação pode deixar de ser realizada por falta de recursos, mas também pode não acontecer por falta de conhecimento, orientação ou preparo.

Em outro momento, o programa retorna ao cartão de crédito. Em minha avaliação, esse instrumento pode auxiliar as famílias em situações emergenciais. Emergências existem e, por definição, nem sempre podem ser previstas. Essa reflexão me faz lembrar o livro A Lógica do Cisne Negro: o impacto do altamente improvável, que trata da ocorrência de eventos raros e de seus efeitos.

Apoiando-se em informações divulgadas pela CNN, o documentário apresenta diferentes tipos de dívidas. Esse tema dialoga com pesquisas que já tive a oportunidade de orientar, inclusive sobre a capacidade explicativa do uso do cartão de crédito no endividamento familiar.

Neste ponto, apresento uma impressão pessoal: considero que as instituições financeiras já não demonstram o mesmo rigor observado em outros períodos para a concessão de crédito. Anteriormente, havia uma exigência intensa de comprovação de renda, e os limites concedidos eram mais diretamente relacionados à capacidade de pagamento. Atualmente, em determinadas situações, o crédito pode ser oferecido de maneira rápida, sem que o consumidor compreenda integralmente seus custos e consequências.

A orientação apresentada pelo documentário é objetiva: primeiro, deve-se levantar o tamanho da dívida; depois, verificar sua origem e sua veracidade; por fim, buscar a negociação. Quando necessário, é recomendável pedir ajuda. A negociação deve resultar em parcelas compatíveis com o orçamento familiar, pois não faz sentido substituir uma dívida impagável por outra cujas parcelas são incompatíveis com a renda.

Os depoimentos familiares voltam a cumprir uma função importante, pois revelam como diferentes pessoas lidam com o dinheiro. Um casal é apresentado como exemplo de construção de objetivos. Esse caso reforça algo que costumo tratar em sala de aula: a formação de poupança tende a ser mais consistente quando está associada a um objetivo concreto.

Para o casal do documentário, esse objetivo é a aquisição da casa própria. O amadurecimento aconteceu com o tempo, tanto na relação entre os dois quanto na maneira de lidar com o dinheiro. A construção da poupança exigiu a renúncia a algumas atividades e hábitos que geravam gastos. Não se tratava simplesmente de “parar de viver”, mas de decidir quais escolhas seriam temporariamente adiadas em favor de um projeto maior.

A presença do professor Fabio Gallo volta a ser relevante quando ele aborda a organização financeira das famílias e a formação de poupança. Para explicar a importância econômica desse processo, costumo recorrer a uma comparação simples: se existem muitos tomates disponíveis na feira, seu preço tende a ser menor; se os tomates estão escassos ou escondidos, o preço tende a aumentar. De maneira semelhante, quando há maior volume de poupança disponível na economia, o custo do dinheiro, representado pelas taxas de juros, tende a encontrar condições mais favoráveis.

Essa comparação é uma contribuição pessoal e não faz parte do documentário. Ainda assim, ajuda a compreender que a poupança não beneficia apenas a família que a constitui. Em termos econômicos mais amplos, ela também pode colaborar para a oferta de recursos destinados ao financiamento e ao investimento, inclusive de empresas que irão disponibilizar empregos.

O consumo consciente é mencionado, embora não seja aprofundado. Mesmo assim, sua presença é importante. Consumir conscientemente não significa deixar de comprar, mas refletir sobre a necessidade, a utilidade, o custo, o momento da compra e os impactos da decisão.

Em uma comparação apresentada no programa, Ione Amorim comenta que algumas diaristas conseguem adquirir a casa própria, enquanto famílias com renda superior a dez mil reais permanecem no aluguel. A observação ajuda a demonstrar que renda elevada não representa, necessariamente, organização financeira. Contudo, considero que o documentário, por não ter pretensão acadêmica, por vezes recorre a generalizações. Situações familiares são complexas e dependem de localização, número de dependentes, condições de saúde, custo de vida, estabilidade profissional e outros fatores.

Uma das contribuições práticas apresentadas pelo professor Gallo é o chamado “Orçamento de Guerra”, organizado nas categorias A, B, C e D: Alimentar, Básico, Contornável e Desnecessário. A proposta é identificar cada gasto e verificar o que pode ser reduzido ou evitado, de maneira que, ao final do mês, algum recurso possa ser direcionado à formação de poupança.

Ao falar em poupança, não me refiro necessariamente à Caderneta de Poupança. Atualmente existem outras opções de aplicações financeiras, tema que poderia resultar em um módulo específico ou em um conjunto de conteúdos para material didático.

Embora não sejam apresentadas no documentário, existem diversas metodologias de organização financeira, como a regra 50-30-20, o método Kakebo e outras propostas de categorização dos gastos. Eu mesma criei o GPS, sigla para Gerenciamento por Semana. Posteriormente, percebi que, antes de utilizar qualquer ferramenta, é necessário conhecer os princípios básicos do comportamento financeiro. Atualmente já temos o uso da IA como instrumento de ajuda, mas não saberia dizer se existem conflitos. Afinal, se pesquisarmos algo no Google, automaticamente nossa rede social tem uma solução para aquela busca.

Em meu entendimento, todas essas metodologias (com exceção da IA, por desconhecer) procuram cumprir uma função semelhante: organizar a renda, controlar os gastos, definir prioridades e criar condições para a formação de reservas. Contudo, também existem juízos de valor sobre aquilo que pode ou não ser consumido. Por isso, cada pessoa ou casal precisa, com maturidade, definir o que considera importante. A ferramenta deve auxiliar a decisão, e não impor um padrão único de vida.

Depois de uma explicação geral sobre educação financeira, o documentário direciona seu olhar para as favelas e apresenta a participação de Gilson Rodrigues, representante do G10 Favelas. A união de diferentes comunidades fortalece o grupo nas relações comerciais, na negociação e no desenvolvimento de empreendimentos.

O documentário valoriza o empreendedorismo como instrumento de geração de renda. Nesse ponto, considero necessário acrescentar que, quando o salário cede espaço ao pró-labore, surgem novas responsabilidades. Assim como as famílias precisam de orçamento, as empresas necessitam de um orçamento de caixa, utilizado como ferramenta de planejamento e controle.

No primeiro semestre de 2026, por meio de uma atividade desenvolvida na UNEB, alunos conseguiram disseminar essa prática em condomínios de baixa renda. Essa experiência reforça minha percepção de que conhecimentos financeiros podem ser ensinados por meio de ações simples, próximas da realidade das comunidades.

O documentário também apresenta as dificuldades enfrentadas pelos moradores de favelas para obter crédito. Ao mesmo tempo, mostra a existência de redes de apoio que ajudam os empreendedores a estruturar e manter seus negócios. São iniciativas relevantes, sobretudo em espaços nos quais a presença do Estado ainda se mostra insuficiente.

Também são apresentados projetos que favorecem o acesso à educação nas comunidades. Enquanto procurava resumir o documentário e acrescentar algumas contribuições acadêmicas, lembrei-me dos ensinamentos do livro O Louco de Deus, que recupera uma reflexão do papa Francisco sobre a necessidade de proximidade e apoio às populações das favelas.

Antes de mudar de foco, o documentário destaca a participação do G10 Favelas em diversos projetos sociais. O sonho da casa própria volta a aparecer como uma aspiração recorrente entre os brasileiros. Ao mesmo tempo, a capacitação dos empreendedores é tratada como uma necessidade. A educação financeira deve começar antes mesmo da decisão sobre a forma como a renda será gerada.

O programa também reserva espaço para as aplicações financeiras. Faço, porém, uma observação: embora seja importante procurar boas rentabilidades, o maior esforço inicial deve estar na ampliação da renda e na redução ou reorganização dos gastos.

Costumo brincar com meus alunos que, se uma empresa criada para produzir e vender mercadorias obtém resultados maiores com aplicações financeiras do que com sua atividade principal, talvez esteja atuando no segmento errado. Nesse caso, respeitados os trâmites legais, seria mais coerente transformar-se em uma empresa de investimentos do que permanecer como uma organização produtora de bens.

Com isso, a função da gestão de caixa empresarial é antecipar eventuais necessidades de capital de giro e, quando possível, proteger os recursos dos efeitos da inflação. Aplicações financeiras podem ser complementares à atividade empresarial, mas não devem substituir sua finalidade principal.

Naturalmente, existem produtos com rentabilidades mais elevadas. Entretanto, eles costumam apresentar riscos igualmente maiores, inclusive a possibilidade de redução do valor investido. É nesse momento que o documentário introduz a relação entre risco e retorno.

O argumento central permanece ligado à formação de poupança. A aplicação mais conhecida pela população brasileira é a Caderneta de Poupança, que atualmente pode apresentar rentabilidade pouco atrativa em determinados contextos. Por essa razão, o documentário recomenda pesquisar outras alternativas.

A abordagem sobre investimentos ainda é introdutória. Aos conceitos de risco e retorno, acrescenta-se a liquidez, isto é, a facilidade de transformar uma aplicação em dinheiro disponível. Esses três elementos precisam ser analisados de maneira conjunta. Rentabilidade elevada, isoladamente, não é suficiente para caracterizar uma aplicação financeira como recomendável para qualquer perfil.

Nesse ponto, reconheço também uma necessidade pessoal de continuar estudando. Para quem escreveu Proteja-se de Você Mesmo, entendo que pedir ajuda pode ser uma decisão racional. Uma pessoa que enfrenta uma jornada diária de oito horas de trabalho, somada aos cuidados com o lar, a saúde, a família e o lazer, nem sempre dispõe de tempo para estudar todos os produtos financeiros existentes.

Essas são percepções construídas ao longo de 26 anos de docência. O conhecimento financeiro é necessário, mas não se pode transferir toda a responsabilidade para o indivíduo, ignorando a complexidade do sistema financeiro, a falta de tempo e as desigualdades de acesso à informação qualificada.

Retornando ao conteúdo do documentário, Ione Amorim caracteriza a educação financeira como um instrumento de conscientização e empoderamento da população. À medida que as pessoas compreendem melhor os produtos, contratos e custos financeiros, as relações entre consumidores e instituições tornam-se menos assimétricas. Essa construção, porém, ocorre gradualmente.

O documentário parece reservar para sua parte final uma temática relativamente recente: a chamada economia prateada. A sociedade está vivendo mais e, por isso, precisa pensar de maneira mais cuidadosa sobre aposentadoria, longevidade e manutenção da qualidade de vida. Novamente, a palavra central é planejamento.

Também já discuti esse assunto no livro Tenha Modos com o seu Dinheiro, no qual faço referência à hipótese do Ciclo de Vida e da Poupança, abordagem acadêmica clássica desenvolvida a partir da década de 1950. A ideia central é que as pessoas organizam consumo e poupança considerando as diferentes etapas da vida.

No documentário, o planejamento para a aposentadoria envolve a constituição de reservas ao longo dos anos. Após a aposentadoria, o orçamento precisará ser ajustado à nova realidade de renda e às reservas acumuladas. Esse processo exige autocontrole, capacidade que também se desenvolve com o amadurecimento.

Faço novamente um recorte pessoal para lembrar o ensaio Narrativas Explicativas: consumo e pertencimento. Nesse trabalho, observo a existência de narrativas que enquadram o consumo como condição de pertencimento social. Essas mensagens podem influenciar escolhas e desorganizar qualquer orçamento, especialmente quando a pessoa sente que precisa comprar para ser aceita ou reconhecida.

Quando não há planejamento suficiente, algumas pessoas precisam retornar ao mercado de trabalho no final da carreira ou mesmo depois da aposentadoria. Isso pode acontecer por diferentes razões, mas demonstra a importância de pensar o futuro financeiro com antecedência.

O encerramento do documentário é esclarecedor ao afirmar que a educação financeira é construída por meio de informação e conhecimento. Acrescento, contudo, um alerta: vivemos na era da hiperinformação, marcada por conteúdos abundantes, efêmeros e, muitas vezes, contraditórios.

Informação e conhecimento não são exatamente a mesma coisa. A informação pode ser recebida rapidamente; o conhecimento exige compreensão, prática, comparação e capacidade de aplicação. Nas decisões financeiras, é necessário reduzir a impulsividade e ampliar a racionalidade, sem ignorar que emoções e percepções também fazem parte do comportamento humano.

O documentário constitui uma iniciativa valiosa e deixa a expectativa de que outros conteúdos possam ser desenvolvidos em módulos mais específicos. Entre os temas que merecem aprofundamento, destaco a gestão separada dos recursos pessoais e empresariais, uma vez que os patrimônios não devem se confundir; as mudanças provocadas pelas diferentes fases da vida; as aplicações financeiras mais acessíveis; os órgãos de fiscalização e proteção do consumidor; as possibilidades de redução e negociação das dívidas; o uso da tecnologia nas decisões financeiras; e as contribuições das finanças comportamentais.

Também seria importante explicar que as empresas, em determinadas situações, conseguem reduzir sua exposição às dívidas por meio da desmobilização, isto é, da venda de ativos. As famílias, por sua vez, nem sempre possuem patrimônio disponível para realizar esse tipo de operação. Isso torna a prevenção ainda mais necessária.

A tecnologia também merece uma análise específica. Embora seja uma aliada na organização financeira, na comparação de preços e no acompanhamento dos gastos, ela pode estimular decisões equivocadas por meio da facilidade de compra, da oferta instantânea de crédito e das estratégias digitais de persuasão.

Em síntese, o Manual Básico da Educação Financeira apresenta de forma acessível assuntos que precisam fazer parte da vida cotidiana das famílias. Mesmo recorrendo a algumas generalizações e abordando determinados temas apenas de maneira introdutória, o documentário contribui para ampliar o debate sobre endividamento, poupança, consumo, empreendedorismo, crédito, aposentadoria e comportamento financeiro.

Minhas observações buscam identificar algumas possibilidade de discussão para o programa, dialogando com ele a partir da experiência acadêmica, da docência e de reflexões desenvolvidas em outros trabalhos. O documentário cumpre a importante tarefa de iniciar uma conversa que ainda precisa ser ampliada em nossa sociedade.

Por essa razão, recomendo o documentário a todos. Educação financeira não deve ser entendida como um conjunto de fórmulas para enriquecer, mas como um processo de formação para fazer escolhas mais conscientes, prevenir dificuldades, estabelecer objetivos e construir uma relação mais equilibrada com o dinheiro.

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