A narrativa do fracasso

A manhã de 16 de março de 2026, no auditório do Manchester City, não foi apenas o cenário de uma coletiva protocolar da UEFA. Ali se abriu uma fissura em uma das narrativas dominantes da modernidade: a ideia de que desempenho contínuo e triunfo permanentes são sinônimos de valor. Quando o técnico Guardiola foi confrontado, em um trecho amplamente divulgado nas redes da TNT Sports Brasil, com a condição implícita de fracasso por não converter cada investimento em uma superação de resultado, sua resposta foi quase uma aula de “estatística” moral: “O Real Madrid ganhou 15 Champions, mas jogou 100. Isso significa que perdeu 85. Isso é fracasso? Eles perderam mais do que ganharam”. Ao formular essa observação aparentemente simples, Guardiola não apenas defendeu seu trabalho; ele desmontou um dos mecanismos psicológicos mais persistentes da cultura contemporânea: a transformação da probabilidade em narrativa do desempenho.

O clube citado, o Real Madrid, funciona nesse exemplo como um laboratório simbólico. A história consagra suas quinze conquistas da UEFA Champions League como prova de uma suposta vocação natural para vencer. Entretanto, aquilo que permanece fora do enquadramento narrativo é o dado valioso: as dezenas de campanhas fracassadas que constituem a matéria bruta dessa trajetória. A mente humana, como observa Nassim Nicholas Taleb em seus estudos sobre incerteza, é estruturalmente inclinada a produzir coerência retrospectiva. A chamada falácia narrativa consiste exatamente nesse gesto: transformar séries caóticas de eventos probabilísticos em histórias lineares de destino, mérito ou fatalidade. Assim, a memória coletiva seleciona as vitórias e relega as derrotas ao silêncio estatístico, como se elas fossem anomalias e não a própria regra do jogo. O economista, laureado prêmio Nobel em Economia, Daniel Kahneman lida com esse assunto como heurística da disponibilidade, embora para o prêmio Nobel é comum que o sujeito tome decisões com base no que lhe é disponível. A questão levantada por Guardiola é sobre o que está disponível é não é trazido para a narrativa.

Esse mecanismo cognitivo encontra um terreno fértil na cultura do desempenho descrita por Byung-Chul Han. Em sua análise da sociedade contemporânea, o filosofo diz que o sujeito moderno já não é disciplinado por proibições externas, mas impulsionado por um imperativo interno de rendimento ilimitado. Cada sujeito se torna simultaneamente empreendedor e vigilante de si mesmo. Nesse regime, o fracasso não aparece como uma possibilidade estrutural da existência, mas como um defeito do indivíduo que não conseguiu otimizar sua performance (desempenho). A pressão que recai sobre os treinadores de futebol, a exemplo de Guardiola não é apenas esportiva, ela expressa a lógica ampla de uma sociedade que internalizou a obrigação de produzir resultados favoráveis e contínuos, convertendo a própria vida em uma sequência de metas mensuráveis.

Essa transformação do mundo em campo de rendimento já havia sido diagnosticada por Martin Heidegger em sua reflexão sobre a técnica moderna. Para ele, a técnica não se limita a instrumentos ou máquinas; ela constitui uma forma de revelar o mundo na qual tudo passa a ser interpretado como recurso disponível para exploração e otimização. Nesse horizonte, o futebol deixa de ser apenas um jogo, experiência estética ou celebração coletiva. Ele passa a funcionar como dispositivo de produção de resultados, métricas e rankings. A cada temporada, a expectativa se reorganiza em torno da entrega de um produto final: o título. Quando esse produto não aparece, o sistema reage como se tivesse ocorrido uma falha estrutural. A crítica dirigida a Guardiola nasce exatamente desse enquadramento técnico: se há investimento, deve haver retorno. Afinal, tudo ao ganhador.

Contudo, a própria biologia humana sugere uma interpretação diferente do processo de busca e recompensa. O neurocientista Robert Sapolsky mostra que o sistema dopaminérgico não é movido pelo prazer da recompensa final, mas pela expectativa que antecede a conquista. A dopamina aumenta no momento da possibilidade, na incerteza que precede o resultado. Em outras palavras, o sujeito está biologicamente organizado para a busca, não para a permanência no triunfo. A cultura do desempenho, entretanto, sequestra esse mecanismo natural ao transformar cada tentativa não bem-sucedida em experiência de perda.

A economia comportamental aprofundou esse diagnóstico. Em sua formulação da teoria do prospecto, Daniel Kahneman e Amos Tversky demonstraram que a mente humana reage às perdas com intensidade muito maior do que aos ganhos equivalentes. A aversão à perda faz com que a ausência de triunfo seja percebida como derrota absoluta, mesmo quando estatisticamente ela representa apenas um resultado provável em competições. A cada temporada sem título, o discurso público interpreta a situação como colapso, ignorando que a própria estrutura probabilística do esporte garante que a maioria das tentativas terminará sem triunfo.

Nesse ponto emerge uma perspectiva distinta, apresentada por Angela Duckworth em seu conceito de garra. Para Duckworth, o que diferencia trajetórias duradouras não é a sequência ininterrupta de acertos, mas a capacidade de sustentar paixão e perseverança ao longo de longos períodos de tentativa, erro e repetição. A palavra chave é a repetição. A garra consiste precisamente na disposição de permanecer no processo quando os resultados almejados não são alcançados. Sob essa perspectiva, as oitenta e cinco campanhas sem título mencionadas por Guardiola deixam de ser evidência de fracasso e passam a constituir o próprio substrato da persistência histórica que permite que alguns triunfos existam.

Talvez seja por isso que a crítica cultural contemporânea tenha buscado, em outras esferas da experiência, formas de escapar da obsessão pelo resultado. E não somente dele, mas de estar conectado um volume de informação por vezes desnecessário. O filme Perfect Days, dirigido por Wim Wenders, oferece um contraponto silencioso à lógica da performance. Seu protagonista encontra sentido não em conquistas extraordinárias, mas na repetição cotidiana de tarefas simples. Ao limpar banheiros públicos em Tóquio e observar pequenas variações da rotina diária, ele constrói uma relação com o tempo que não depende de reconhecimento. Trata-se de uma forma de habitar o mundo que suspende temporariamente a exigência de desempenho contínuo.

O comentário de Guardiola parece tocar em outra perspectiva. Ao recordar as derrotas do Real Madrid, ele desloca o foco da narrativa esportiva do evento excepcional para a duração do processo. Em vez de perguntar quantas vezes alguém venceu, a pergunta se transforma em outra: quantas vezes alguém esteve disposto a continuar tentando. Nesse deslocamento emerge uma possibilidade diferente de interpretar o fracasso. Ele mesmo sendo o oposto do sucesso pode ser visto como condição estrutural de qualquer empreendimento humano.

Assim, a manhã de Manchester deve lida como algo mais do que uma entrevista esportiva. Ela revela um conflito profundo entre duas formas de compreender a experiência humana. De um lado está a lógica técnica do desempenho, que exige resultados favoráveis e constantes e interpreta qualquer interrupção como falha. De outro lado está uma compreensão ampla da existência, na qual a repetição, o erro e a tentativa fazem parte da própria “textura” da vida. Quando Guardiola evoca as oitenta e cinco derrotas que sustentam quinze vitórias históricas, ele recorda algo que a cultura contemporânea frequentemente prefere esquecer: toda narrativa de sucesso é construída sobre uma base de tentativas que não chegaram ao pódio. Reconhecer isso não diminui a glória das conquistas; ao contrário, devolve a elas sua dimensão realista e humana.

Espero que tenham gostado.

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